Por que a fotografia é a última defesa da beleza e do sublime na arte contemporânea e nas redes sociais
Em um tempo em que instituições artísticas frequentemente desprezam a estética, fotógrafos mantêm viva a busca pelo belo e pelo assombro em paisagens, retratos e imagens do micro e do macro
A estética une dois conceitos que costumam ser tratados separadamente: a beleza, que agrada e conforta, e o sublime, que impressiona e supera a capacidade de compreensão. Enquanto a cena das artes contemporâneas tende a priorizar ideia e crítica, muitos fotógrafos continuam a investir no apelo estético. Essa persistência levanta questões sobre o valor emocional e social do belo e por que a fotografia pode estar na linha de frente de sua preservação.
O que são beleza e sublime?
Beleza costuma ser descrita como aquilo que agrada os sentidos: harmonia, proporção, cor e forma. O sublime, por sua vez, provoca assombro e sensação de grandeza que transcende o controle humano, como uma tempestade no mar ou a visão de montanhas imensas. Juntas, essas experiências constituem grande parte do que chamamos de estética.
Filósofos debateram por séculos se a beleza é uma qualidade intrínseca dos objetos ou resultado de percepções individuais. Platão e Aristóteles viram a beleza ligada a ordem, simetria e proporção. Kant e Hume defenderam que ela depende do gosto e do contexto do observador. Francis Hutcheson sugeriu que a beleza é relacional, emergindo da interação entre objeto, observador e situação. Na prática, a experiência parece ambas: há consensos amplos sobre pores do sol e rosas, mas gostos individuais e culturais variam.
Por que a estética foi rejeitada e qual é o problema dessa rejeição
Movimentos modernistas e avanguardistas como surrealismo, cubismo, dadaísmo e minimalismo deslocaram o foco da ornamentação para a ideia. Em vez de procurar o maravilhoso e o harmonioso, muitos artistas passaram a priorizar o conceito, a crítica social ou a quebra de expectativas. Instituições e curadores, por sua vez, passaram a avaliar obras pelo impacto intelectual e contestatório, relegando a beleza a um segundo plano.
O resultado foi uma desvalorização do belo nas grandes narrativas artísticas. A Tate, entre outras, chegou a reconhecer que o critério estético foi depreciado nas últimas décadas. Isso não significa que a beleza desapareceu por completo, mas que passou a ser vista com suspeita: associada a consumismo, superficialidade ou elitismo. O problema dessa atitude é que se perde também a capacidade de provocar emoções positivas profundas. Beleza e sublime oferecem prazer estético e experiência transformadora, aspectos que a arte crítica nem sempre prioriza.
Beleza humana, desejo e poder cultural
O que consideramos belo no corpo humano varia com o tempo e a cultura. Exemplos históricos deixam isso claro: os corpos rubensianos, voluptuosos e arredondados, contrastam com os modelos extremamente magros celebrados por parte da moda ocidental nos anos 1990 e 2000. Em 2004, quando o autor desta pauta mudou-se para a África, outdoors locais exaltavam corpos mais cheios e rostos arredondados como sinais de saúde e prosperidade. Já retratos de cavalheiros do século 17 evocavam elegância aristocrática, muito diferente do ideal masculino musculoso atual.
A atração por certos traços tem também fundamento evolutivo: simetria e sinais de saúde tendem a ser interpretados como indícios de aptidão genética, e isso se conecta com desejo sexual. Ao mesmo tempo, a indústria cultural e publicitária molda padrões para fins comerciais, o que pode levar a imposições estéticas globais e à chamada imperialismo cultural. A promoção de corpos extremamente magros ou rostos idealizados por mercados majoritariamente ocidentais trouxe consequências sociais e morais, incluindo a objetificação e a exploração de mulheres e meninas.
Por que a fotografia mantém o belo e o sublime
Enquanto muitas áreas das artes buscam afastar-se do apelo estético, a fotografia, por sua relação direta com o visível, preserva uma função clássica do belo. Fotografias de paisagem inspiradas em Ansel Adams continuam a buscar o sublime; macrofotografia revela a delicadeza oculta em texturas ínfimas; astrofotografia expõe a grandeza do cosmos; retratos e fotografia de casamento enfatizam o melhor das pessoas e dos momentos. Esses gêneros provam que a fotografia consegue tanto documentar quanto elevar a experiência estética.
Além disso, a dinâmica das redes sociais reforça a produção de imagens esteticamente agradáveis. Plataformas como Instagram recompensam o belo com curtidas e comentários, criando um ciclo de retroalimentação onde imagens mais atraentes geram maior engajamento — e receita. Essa lógica, embora produzindo imagens muitas vezes esquecíveis, confirma que grande parte do público continua a buscar e valorizar o belo.
Ao mesmo tempo, a arte fotográfica não precisa se subordinar ao mercado ou às tendências curatoriais. Fotografar o que emociona, seja beleza clássica, sublime grandioso ou experimentações conceituais, é uma escolha legítima. Produzir imagens para agradar ao olhar não é necessariamente superficial: pode ser um ato de resistência contra a cultural dominante que pretende minimizar as emoções positivas que a estética gera.
Um exercício simples para testar essas ideias: escolha um dia para fotografar três imagens — uma deliberadamente bela, outra que busque o sublime e uma terceira abstrata e propositalmente pouco agradável. Publique, em três semanas seguidas, uma dessas imagens na mesma conta e observe quais atraem mais curtidas e qual você prefere pessoalmente. O experimento costuma revelar uma divergência entre gosto próprio e resposta do público, e também mostra como a estética ainda exerce grande poder.
Em suma, a fotografia mantém viva a busca pelo belo e pelo sublime porque trabalha com o visível e porque responde tanto ao desejo humano por emoções positivas quanto às dinâmicas do mercado. Se a arte conceitual questiona e expande limites, a fotografia lembra que apreciar o belo e ser tomado pelo assombro continuam sendo experiências humanas fundamentais. Para fotógrafos e para quem consome imagens, a recomendação é simples: seja fiel ao que emociona você, porque há espaço tanto para a beleza quanto para a experimentação na paisagem complexa da arte contemporânea.






