Todo marqueteiro diz que você precisa ter ‘gosto’: um guia prático para desenvolver julgamento e criar conteúdo que realmente importa
Entenda por que “gosto” não é só estética — é a habilidade de escolher o que vale a pena criar
Quando profissionais do marketing falam em “gosto” ou taste, quase sempre querem dizer julgamento: a capacidade de decidir o que merece ser produzido e por quê. Em uma era em que a produção de conteúdo foi democratizada pela internet — e agora acelerada por ferramentas de inteligência artificial — a escassez deixou de ser a capacidade de criar e passou a ser a capacidade de escolher. Marcas e criadores que desenvolvem julgamento publicam menos, mas causam mais impacto.
1. Estude a história do seu setor (e além dele)
Ideias raramente surgem do nada. Ler os clássicos da sua área ajuda a entender padrões e prever tendências. Michael Ovitz resume isso bem: conhecer a história permite antever o futuro. Mas limitar-se ao próprio vertical é um erro comum. Os profissionais de conteúdo mais interessantes não se prendem a blogs de marketing: leem economia, psicologia, literatura, história e ficção. Rory Sutherland, vice-chairman da Ogilvy, já observou que os melhores livros sobre publicidade nem sempre são sobre publicidade.
Consumo lateral gera cruzamentos originais. Sua preferência numa área influencia sua capacidade de julgar outra — é daí que saem combinações distintivas.
2. Não consuma passivamente: analise o que funciona
Para transformar leitura e visão em gosto, você precisa explicar motivos específicos. Dizer “gostei” não basta; descreva o que torna um texto, vídeo ou campanha eficaz — ritmo, argumento, tom, escolha visual, contexto cultural. A habilidade de articular o porquê diferencia um apreciador de um crítico com gosto alinhado ao público. Exemplos práticos ajudam: o sucesso de programas como Culinary Class Wars mostra que jurados capazes de apontar, com clareza técnica, por que um prato funciona, elevam a experiência do público.
3. Coloque as repetições: faça muito trabalho ruim antes de ficar bom
Gosto é experiência comprimida — e experiência vem de prática. Não há atalho: você precisa tomar centenas de decisões editoriais. Escreva 100 textos, publique 100 posts, grave 100 vídeos. Scott Young fala sobre esse acúmulo de repetições como caminho irremediável para melhorar. Cada tentativa, e a análise posterior, treina seu julgamento.
4. Crie feedback loops reais e aceite a polarização
Trabalhar isolado limita seu senso de eficácia. Publique, converse com sua audiência, pergunte o que foi útil e observe o que as pessoas compartilham. Feedback direto — online e offline — revela onde seu gosto encontra ressonância e onde falha em ajudar. Lembre-se: ter ponto de vista provoca. Se todo mundo gosta do seu trabalho, você provavelmente está evitando escolhas fortes. A polarização é uma consequência natural de ter gosto; o problema é forçar controvérsia artificiosa ou buscar cliques às custas da sinceridade.
O novo diferencial: saber o que vale a pena criar
Com produção simplificada por IA, o gargalo deixou de ser a criação e passou a ser a curadoria do que criar. Marcas que usam tecnologia apenas para eficiência produzirão rios de conteúdo mediano — fáceis de esquecer. As que vencem são aquelas que desaceleram, desenvolvem ponto de vista e fazem escolhas firmes: publicam menos e importam mais.
Em prática, isso significa investir em leitura ampla, análise criteriosa, volume de experimentos e conversas constantes com a audiência. Gosto não é um traço místico; é uma competência treinável. E, no mercado atual, é a vantagem competitiva mais difícil de ser automatizada.
Conclusão: pare de confundir produtividade com julgamento. Se você quer que seu conteúdo seja lembrado, comece por decidir, com clareza, o que vale a pena criar — e por quê.






