Uma óptica intencional, um redesign inteligente e uma pergunta direta: ela cabe no seu trabalho?
Você coloca a lente na câmera, enquadra um rosto com uma rua ao fundo e começa a ajustar o foco. Até aí, normal. Mas quando você olha pelo visor e vê aquele fundo girando — as linhas da calçada se torcendo em espiral, as luzes da vitrine se abrindo como rodamoinho — percebe que está usando uma óptica fora do padrão. A Lomography Petzval 55mm f/1.7 não promete nitidez clínica. Ela promete personalidade. A questão é: quanto você está disposto a pagar por isso em praticidade?
A resposta rápida: a versão com foco acoplado (coupled focusing) torna a lente muito mais operável do que os modelos anteriores. O ring de foco ganhou curso longo e bem amortecido, aceita follow focus, e os controles foram reorganizados de forma que você consegue ajustar o bokeh sem perder o ponto de foco. Para fotografia de retrato criativa e vídeo com efeito artístico, é uma ferramenta que funciona de verdade. Para fotografia comercial, produto ou qualquer coisa que exija planura de foco e previsibilidade máxima, não é.
O que é o efeito swirly, antes de qualquer coisa
Se você nunca usou uma lente Petzval, o nome do efeito pode soar obscuro. Mas a imagem é imediata: imagine um retrato onde o assunto central está nítido e, ao redor, o fundo começa a girar em redemoinhos suaves, como se a foto tivesse um vórtice próprio. É um efeito que remonta ao século XIX, quando o óptico Josef Petzval projetou uma fórmula de lente que ficou famosa justamente por essa característica.
A Lomography ressuscitou esse design para câmeras modernas. O bokeh giratório é resultado da curvatura de campo pronunciada da óptica — o plano de foco não é plano como numa lente convencional, mas curvo. Quando você foca num ponto central, as bordas do quadro ficam fora do plano de foco, e a forma como a lente renderiza esse desfoque nas bordas cria o efeito espiral.
Isso não é defeito. É o projeto. Só que precisa ser entendido assim, senão a frustração é certa.
O que mudou com o foco acoplado
Nas versões anteriores da Petzval, o anel de foco era independente e de operação um pouco caótica para uso contínuo. Quem já tentou filmar com a lente enquanto ajustava o bokeh ao mesmo tempo sabe: os controles disputavam atenção e a sequência de movimentos não era intuitiva.
A versão revisada reorganiza tudo. O anel de foco foi para a frente e ganhou um curso mais longo, o que significa ajustes mais precisos com menos rotação — vantagem real tanto para foto quanto para vídeo. Além disso, o anel é engrenado, então ele encaixa em sistemas de follow focus sem dificuldade. Para cineastas que trabalham com assistente de câmera ou com rigs artesanais, isso faz diferença concreta.
O anel de abertura migrou para a parte traseira do corpo. O de controle de bokeh fica no meio. Na prática: foco na frente, bokeh no centro, abertura atrás. Uma lógica que, depois de alguns minutos de uso, vira memória muscular.
O acabamento também mudou. O dourado exuberante das versões anteriores foi substituído por um corpo metálico mais sóbrio. Perde-se um pouco da excentricidade visual da lente. Ganha-se uma peça que não parece fantasia num set de filmagem.
Desempenho ótico: saber o que esperar é metade do trabalho
Em f/1.7, a área em foco tem nitidez aceitável para retratos, mas o conjunto todo é suave. Vinheta pesada nas bordas, sensibilidade a flares acentuada, e o bokeh swirly aparece com força. Para imagens de cidade com fundo urbano, esse f/1.7 pode resultar em composições com muito caráter — o asfalto molhado atrás do assunto parece pintura.
Já para close-ups em f/1.7, a maciez aumenta mais ainda. Na prática, f/2.8 é o limite mínimo para quem quer algum controle sobre a nitidez do assunto num enquadramento próximo.
Ao fechar para f/5.6, a nitidez central melhora bastante. A curvatura de campo persiste — ela é estrutural, não vai embora com a abertura — mas o centro do quadro fica mais definido. O bokeh giratório fica menos intenso.
O comportamento ao flare é notável. Apontou para uma fonte de luz intensa? O contraste cai, o véu aparece. Alguns fotógrafos adoram esse look. Outros acham impossível de controlar. Vale testar antes de levar para um trabalho que não aceita variação.
As placas de bokeh: recurso criativo com custo de exposição
A lente vem acompanhada de um conjunto de placas de abertura que transformam o formato do desfoque. Em vez de círculos, você consegue estrelas, corações e outras formas geométricas nos pontos de luz fora de foco.
O efeito fica mais limpo quando o anel de controle de bokeh está na posição mais suave. Mesmo assim, as figuras perdem a definição nas bordas do quadro — consequência direta da curvatura de campo. No centro, funcionam bem; nas extremidades, deformam.
Um detalhe prático: cada placa tem o número de f equivalente impresso. Isso importa para exposição, porque ao inserir uma placa você está reduzindo a abertura efetiva. Uma placa que equivale a f/4, por exemplo, vai pedir ajuste no ISO ou na velocidade para manter a exposição.
A troca das placas exige desrosquear um parafuso interno no encaixe traseiro. É simples, mas é um passo que você vai querer fazer em casa, não no meio de uma sessão. Experimentei trocar no campo uma vez — é perfeitamente possível, mas é o tipo de coisa que pede calma e uma superfície plana para não perder a placa no chão.
Para quem essa lente faz sentido
Fotógrafos de retrato que querem afastar o trabalho do padrão corporativo e criar imagens com estética diferenciada. A Petzval entrega uma personalidade que lentes convencionais de 50mm simplesmente não têm.
Criadores de vídeo que trabalham com narrativas visuais onde o efeito artístico é parte intencional da linguagem — videoclipes, vídeos de marca com estética vintage, ensaios cinematográficos. O foco acoplado com suporte a follow focus torna isso factível de verdade.
Para fotografia de produto, imobiliário, eventos corporativos ou qualquer contexto onde o cliente espera imagem limpa e previsível: não é aqui. A curvatura de campo, o flare e o bokeh giratório são inegociáveis — você não os desliga.
Perguntas frequentes
O bokeh swirly aparece em todas as fotos?
Depende do fundo e da distância. Com fundo próximo ou homogêneo, o efeito é menos visível. Ele aparece com mais força quando há pontos de luz ou linhas no fundo, com a lente aberta e o assunto a distância média do fundo. Você controla a intensidade com o anel de bokeh e com a abertura.
Funciona para vídeo?
A versão com foco acoplado foi desenhada para isso. O anel de foco com curso longo e suporte a follow focus tornam as pulls de foco suaves e controláveis. A respiração de foco existe (a imagem levemente amplia ou reduz ao focar), mas está dentro do esperado para uma lente manual analógica.
É possível usar em câmeras mirrorless?
Sim, com o adaptador correto para o seu mount. Por ser manual em tudo (foco, abertura, bokeh), não há comunicação eletrônica com o corpo — você perde EXIF de abertura e precisa trabalhar no modo manual ou com prioridade de abertura via exposição manual.
Em que situações a curvatura de campo atrapalha mais?
Em close-ups de superfícies planas — produto em mesa, textura de tecido, páginas de livro. Nesses casos, a curvatura faz as bordas ficarem visivelmente mais suaves que o centro, mesmo em f/5.6. Para essas aplicações, qualquer lente convencional entrega resultado mais consistente.
O bokeh com formatos geométricos (estrelas, corações) fica bom?
No centro do quadro e com fundo de pontos de luz bem separados, sim. Nas bordas, as formas deformam por causa da curvatura de campo. O efeito é mais limpo com o anel de bokeh na posição mais suave.
Veredito
A Petzval 55mm f/1.7 com foco acoplado resolveu o principal obstáculo das versões anteriores: a operação. O redesign dos controles é funcional, a construção é sólida e o suporte a follow focus amplia as possibilidades no vídeo.
O que não mudou é a óptica — e não devia mudar. A curvatura de campo, o bokeh giratório, a sensibilidade ao flare e a vinheta em abertura máxima são a razão de existir desta lente. Quem compra uma Petzval está comprando um efeito, não uma ferramenta neutra.
Se você já olhou para as fotos feitas com Petzval e pensou “quero isso, mas nunca consegui usar direito”, a versão revisada é o momento de tentar. Se você ainda está construindo o domínio da exposição e do foco manual, vale primeiro solidificar esses fundamentos com uma lente convencional — a Petzval recompensa quem já tem controle do básico.
Carlos Rincon – Professor de Fotografia e Pesquisador – Campinas | 1983Em meus trabalhos busco construir uma imagem utilizando um processos históricos da fotografia. A construção da imagem consiste no estudo fundamental no comportamento do ser humano na sociedade e na natureza que o circunda, tendo os princípios da sociologia e filosofia no comportamento humano e sociedade, base fundamental nas minhas pesquisas e fotografia. Há 22 anos sendo professor de fotografia, consigo obter um olhar e um processo criativo ainda mais apurado no âmbito da arte fotográfica devido a diversidade de temas que abordo diariamente.






