Fotografia de Paisagem: Benefícios de um Kit Mínimo

Fotógrafo agachado trocando lente da câmera na trilha

Repetir a mesma trilha com a mochila cheia numa saída e com uma lente só na seguinte mostrou que a diferença está menos no equipamento e mais em quantos ângulos dá tempo de tentar antes da luz mudar.

Por Carlos Rincon, fotógrafo e professor de fotografia na Pixelpró (Campinas).

São 4h45 de um sábado e a trilha da Pedra Grande, em Atibaia, está deserta. Na mochila: dois corpos, quatro lentes, um filtro ND de 6 stops, tripé de alumínio e um estojo de limpeza que eu nunca tinha aberto. Faltam 20 minutos para o sol nascer, e ainda resta o trecho mais íngreme da subida.

Cheguei ao mirante ofegante. Sentei no chão para trocar de lente e, quando levantei a câmera de novo, a luz rosa que valia a foto já tinha passado. Quem fotografa paisagem conhece essa cena. O problema quase nunca é falta de equipamento. É excesso dele.

A resposta direta: para a maioria das saídas, um corpo, uma lente zoom na faixa 16-35mm ou 24-70mm, tripé leve e um filtro polarizador circular resolvem mais de 90% das situações. O resto do arsenal (teleobjetiva, segundo corpo, filtros ND) só compensa o peso extra quando a pauta pede algo específico: comprimir camadas de morros distantes, fazer longa exposição em pleno dia ou fotografar à noite. O resto deste texto explica como cheguei nesse número e quando vale fugir dele.

O peso na subida decide a foto que você não vai fazer

Meu kit antigo, fechado, pesava perto de 9 kg. O que carrego para uma saída de paisagem fica em torno de 3,5 kg. A diferença não é só nas costas.

Com 9 kg, a decisão diante de uma cena costuma ser “essa composição já está boa, vamos ficar aqui”. Com 3,5 kg, a decisão vira “dá pra caminhar mais uns metros e ver como fica do outro lado”. O peso não muda a câmera. Muda a disposição para chegar ao ponto de vista certo.

Tem outro lado nisso que só percebi depois: com menos peso, também sobra disposição para ficar. Numa saída de final de tarde em Joaquim Egídio, a luz abriu entre nuvens por menos de um minuto, fechou de novo e abriu uma segunda vez cerca de vinte minutos depois. Quem está cansado guarda o equipamento na primeira vez que a luz fecha. Quem não está, espera a segunda chance.

Dou aulas de campo na Pixelpró, em Campinas, e esse padrão se repete em quase todo grupo. Quem sai com a mochila mais leve volta com mais variações de enquadramento da mesma cena. Quem sai com tudo costuma fotografar o primeiro ângulo que encontra e ficar ali, porque mudar de posição significa reorganizar o equipamento inteiro.

O que cabe na mochila quando o kit é mínimo

Reduzir não é levar qualquer coisa. Depois de testar combinações em saídas pela região de Campinas, esse é o conjunto que cobre quase qualquer cena de paisagem:

  • Lente zoom 24-70mm f/4 (ou 16-35mm f/4, dependendo do corpo): cobre desde um vale aberto até um detalhe de pedra ou folha em primeiro plano, sem troca de lente.
  • Tripé leve, em torno de 1,4 kg, com carga suportada de 8 a 10 kg: estável para exposições de vários segundos, sem o peso de um tripé de alumínio mais pesado.
  • Filtro polarizador circular: rosqueado na lente, controla reflexo e contraste do céu (explico a seguir).
  • Bateria extra e cartão de memória de reserva: o suficiente para um dia inteiro em RAW, sem precisar economizar enquadramento por medo de ficar sem espaço.

Esse conjunto cabe numa mochila de 15 a 20 litros, com espaço ainda para água e uma capa de chuva. Não precisa de mochila de trilha de 40 litros ou mais, pensada para quem carrega barraca e equipamento de camping.

Por que uma zoom substitui várias lentes fixas

Uma 24-70mm cobre o vale inteiro em 24mm e comprime uma fileira de morros em 70mm, sem precisar trocar de lente no meio do caminho. A decisão de enquadramento vira uma questão de caminhar, para mudar a perspectiva, e girar o anel de zoom, para mudar o recorte.

Em uma saída pela Serra do Japi, em Jundiaí, fotografei a mesma faixa de mata em 24mm, com galhos em primeiro plano e o vale aberto atrás, e em 65mm, um recorte da copa das árvores contra a luz, com o fundo comprimido. As duas fotos saíram do mesmo lugar, no mesmo minuto, só girando o zoom.

Vale sereno ao amanhecer com formação rochosa à esquerda
Vale sereno ao amanhecer

O polarizador que não sai da lente

O polarizador circular é o único filtro que deixo permanentemente na lente. Ele gira sobre um anel e, dependendo do ângulo em relação ao sol, corta reflexos de superfícies como água, folha molhada e pedra úmida. A 90° do sol, o efeito é máximo: o céu fica mais escuro e contrastado, e a água passa de espelho embaçado para superfície onde se vê o fundo.

O custo é perda de luz, algo entre 1 e 1,5 stop, o que na prática te obriga a abrir mais o diafragma ou baixar a velocidade do obturador para compensar. Na Represa de Salto Grande, entre Americana e Nova Odessa, é esse controle de reflexo que separa uma foto de água cinza de uma com céu com volume e reflexo definido.

Quando vale carregar mais

Simplificar não é regra fixa. Há pautas em que o kit mínimo não basta, e insistir nele custa a foto.

Teleobjetiva (70-200mm ou mais): útil para comprimir camadas de morros que se sobrepõem no horizonte, um efeito que fica mais evidente em mirantes altos como o da Pedra Grande. Uma 24-70mm não chega perto desse enquadramento.

Lente rápida (f/1.8 a f/2.8) para céu noturno: fotografar a Via Láctea pede abertura maior e ISO entre 3200 e 6400, para captar luz suficiente num tempo de exposição curto. O limite prático costuma ser a regra de dividir 500 pelo valor da focal; numa lente de 20mm, isso dá cerca de 25 segundos antes de as estrelas começarem a “rastrear”.

Filtro ND de 6 ou 10 stops: o polarizador ajuda, mas não substitui um ND quando o objetivo é esmaecer o movimento de água ou nuvens em pleno sol, como numa cachoeira ao meio-dia.

Segundo corpo ou drone: faz sentido em viagens longas, trabalhos comerciais ou quando o tempo de troca de lente custaria uma cena que não se repete.

A diferença, depois que passei a pensar assim, é que cada item extra tem uma função definida antes de entrar na mochila.

Testei as duas mochilas na mesma trilha

Para confirmar se a sensação batia com o resultado, fiz duas saídas para Joaquim Egídio, distrito rural de Campinas, com uma semana de intervalo. Na primeira, levei o kit completo: dois corpos, três lentes, tripé de alumínio, filtros. Na segunda, só um corpo, a 24-70mm, tripé leve e o polarizador.

Na primeira saída, voltei com 180 fotos e separei 9 como aproveitáveis depois da edição. Na segunda, com 60 fotos e 6 aproveitáveis. O número de cliques caiu porque parei de fotografar “por garantia” a cada troca de lente, e a proporção de fotos boas dobrou.

Olhando o EXIF da que ficou no portfólio dessa segunda saída: 35mm, f/9, 1/60s, ISO 100, num ângulo que eu nunca tinha notado nas visitas anteriores. Nelas, eu estava sempre ocupado decidindo qual lente montar, no minuto exato em que a luz baixa entrava entre as árvores.

Perguntas frequentes

Preciso de uma lente grande angular para fotografar paisagem?

Não é obrigatório. Uma 24-70mm cobre a maioria das cenas. A grande angular (16mm ou menos) ajuda quando o primeiro plano está muito próximo, em matas densas ou trilhas estreitas. Para vistas abertas, recuar alguns passos com a zoom ou fazer um panorama de duas ou três fotos costuma resolver.

Filtro ND faz diferença real ou dá para editar depois?

Para esmaecer movimento (água, nuvens, pessoas passando) em pleno dia, o ND ainda é necessário. Edição não recria o borrão de uma exposição de vários segundos. Para controlar o contraste entre céu e terreno, sim: exposições combinadas no processamento em RAW substituem boa parte do que um filtro graduado fazia antes.

Tripé leve vale o preço mais alto que um modelo pesado e barato?

Vale, se a saída envolve caminhada. A diferença de peso, perto de 1 kg, parece pouco até a terceira hora de trilha. Para quem fotografa do carro ou do quintal, um tripé mais pesado resolve sem diferença prática.

Qual lente é melhor para começar em fotografia de paisagem?

A que já está no kit. Uma 18-55mm de entrada cobre quase tudo que o início em paisagem pede para aprender composição e exposição. A primeira troca recomendada, quando fizer sentido, é uma zoom mais larga (16-35mm) para quem prioriza vistas amplas, ou uma 24-70mm para quem varia entre paisagem, retrato e detalhes.

O kit mínimo funciona para fotografia noturna?

Para céu estrelado, só em parte. O zoom f/4 do kit básico ainda registra a Via Láctea, mas pede ISO acima de 6400 e entrega arquivos com mais ruído. Se a fotografia noturna for a prioridade da saída, a lente rápida (f/1.8 a f/2.8) descrita acima entra como item extra, não como substituição do zoom.

Onde fotografar paisagem perto de Campinas?

Para treinar luz e reflexo sem sair da cidade, a Lagoa do Taquaral funciona bem ao amanhecer, com a água ainda parada. Para vistas amplas em mirante alto, a Pedra Grande, em Atibaia, é uma opção de saída de um dia. Para luz filtrada de mata e contraste alto entre sombra e claro, a Serra do Japi, em Jundiaí, fica na mesma região.

O próximo passo é deixar uma lente em casa

Reduzir o kit não resolve tudo, e não é sobre carregar pouco por princípio. É sobre decidir antes da saída o que a cena vai pedir, em vez de levar tudo para empurrar a decisão para depois.

Se você ainda sai com a mochila cheia, o teste é simples: na próxima ida à Lagoa do Taquaral ou a um mirante perto de Campinas, leve só a lente zoom e o polarizador. Deixe a teleobjetiva e o filtro ND em casa, mesmo que pareça arriscado. A diferença não vai aparecer só na foto que sair. Vai aparecer em quantas você vai conseguir tentar antes de a luz ir embora.


Sobre o autor: Carlos Rincon é fotógrafo especializado em paisagem e professor de fotografia na Pixelpró, em Campinas, onde leva turmas a saídas de campo pela região.

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