Cinegrafista da AP sobrevive em veículo blindado em chamas após ataque da gangue Viv Ansanm com coquetéis molotov em Porto Príncipe

Cinegrafista da AP sobrevive em veículo blindado em chamas após ataque da gangue Viv Ansanm com coquetéis molotov em Porto Príncipe

Pierre‑Richard Luxama, que cobre o Haiti há quase 20 anos, ficou dentro de um blindado tomado por fumaça enquanto policiais evitavam parar por risco de execução; o episódio ilustra a gravidade da violência na capital haitiana.

O ataque e a fuga no blindado

Um cinegrafista da Associated Press foi forçado a seguir em um veículo blindado em chamas nesta segunda‑feira, após a unidade policial que ele acompanhava ser atacada com coquetéis molotov na principal via de Porto Príncipe. A ação foi atribuída à gangue Viv Ansanm, que controla grande parte da capital.

Enquanto policiais revidavam para conter os agressores, o teto do blindado em que Pierre‑Richard Luxama estava pegou fogo e “uma fumaça densa” começou a invadir o interior. Ainda assim, os agentes optaram por não parar – uma medida tomada por medo de que a parada tornasse todos vulneráveis a execuções sumárias.

A calma como estratégia de sobrevivência

Luxama, que trabalha junto com a repórter caribenha Dánica Coto e cobre o Haiti há quase duas décadas, descreveu a situação como angustiante. “Todos estavam calmos, mas a fumaça entrava”, disse ele. “A polícia nos pediu para respirar muito devagar.”

Por cerca de dez minutos, conforme o veículo seguiu até a base, o cinegrafista tentou controlar a respiração para minimizar os efeitos da fumaça. Ao chegar, a visão do teto em chamas provocou pânico entre policiais e civis, que correram para jogar água e extinguir o fogo.

Imagens de horror e contexto da violência

No mesmo dia, Luxama presenciou outras cenas brutais: um braço e uma perna decepados estavam amarrados a um fio elétrico diante de uma loja saqueada e abandonada. A violência nas ruas tem se mostrado cada vez mais selvagem e simbólica, com atos destinados a aterrorizar a população.

Apesar das tentativas das forças de segurança haitianas e de uma missão policial apoiada pela ONU, mais de 1,4 milhão de haitianos foram deslocados internamente, e centenas de milhares enfrentam níveis de fome em emergência — evidências da crise humanitária que acompanha a insegurança.

Perigo crescente para jornalistas

O episódio reforça que Porto Príncipe está entre os lugares mais perigosos do mundo para profissionais da imprensa. O receio de parar veículos blindados vem de imagens, no ano anterior, que mostraram policiais sendo retirados de blindados avariados e mortos por membros de gangues, o que motiva táticas de evasão mesmo quando a própria segurança imediata é comprometida.

Luxama afirmou que aprendeu, com a experiência, a priorizar a calma: “Quando estou em uma situação difícil, a primeira coisa é ficar calmo. Quando você fica calmo, pensa no que vem a seguir e no que deve fazer. Se entrar em pânico, não vai ser bom para você.”

O relato do cinegrafista da AP é mais um sinal da deterioração da ordem pública em Porto Príncipe e do custo humano — inclusive para quem tenta documentar os fatos. Confrontos como esse revelam não só a violência imediata, mas também o ambiente de ameaça contínua que dificulta a cobertura jornalística e amplia a crise humanitária no país.

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