Omnar Bertele 5cm f/2: análise completa — por que esta reinterpretação do Sonnar para Leica M impressiona e pode justificar US$3.700

Omnar Bertele 5cm f/2: análise completa — por que esta reinterpretação do Sonnar para Leica M impressiona e pode justificar US$3.700

Lente boutique britânica revive a clássica fórmula de Ludwig Bertele com ajustes modernos — resultado é belo, mas tem concessões práticas

A Omnar Bertele 5cm f/2 é uma homenagem moderna ao clássico Sonnar de seis elementos criado por Dr. Ludwig Bertele em 1934. Produzida em lotes pequenos no Reino Unido e com preço de pré‑venda em torno de US$3.700, a peça almeja oferecer o caráter óptico de uma era passada ao mesmo tempo em que corrige vícios históricos por meio de tecnologia atual, como vidros mais duros, multicamadas e um bloco óptico flutuante (floating lens block — FLB).

Design e construção: charme de época com acabamento contemporâneo

Fisicamente, a Omnar Bertele é uma declaração de estilo: corpo em latão, acabamento Cerakote preto que promete criar uma pátina agradável com o uso, opção em cromo e possibilidades de customização. A sensação ao segurar é de requinte — a máquina lembra lentes pré‑guerra tanto no visual quanto nos controles clássicos.

Detalhes práticos geram ressalvas. O anel de abertura fica na parte frontal e é estreito; ele gira junto ao helicoide de foco, o que significa que mudar a abertura altera o foco. Na prática, é preciso definir a abertura antes de focar e, se for necessário ajustar durante o disparo, exige habilidade para girar um anel enquanto trava outro. O helicoide de latão é bonito e tradicional, com parada por pino para o infinito, mas fica exposto e revestido de graxa — atrai poeira.

A montagem também pode ser pouco amigável: em alguns casos é preciso levar o anel de foco a um extremo para encaixar ou retirar a lente. Ainda assim, o conjunto é leve e compacto — cerca de 260 gramas — e a qualidade de usinagem é elogiável.

Comportamento óptico: caráter vintage com correções modernas

O grande diferencial técnico da Omnar é a tentativa de preservar o caráter do Sonnar original enquanto elimina problemas práticos. O FLB, por exemplo, busca manter o plano de foco efetivo ao mudar aberturas, evitando a variação de distância focal que obrigava a soluções estranhas na versão histórica (como aberturas estreladas para mascarar erro de foco).

Na prática, a lente causa boas surpresas: resistência a flare é melhor do que o esperado para uma fórmula antiga. Em aberturas fechadas, fantasma e perda de contraste são sutis; em aberturas amplas (f/2), fontes fortes podem criar zonas difusas e lavadas — um efeito que pode ser explorado artisticamente em retratos contraluz, mas exige cuidado (ou sombreado da lente) para evitar reflexos arco‑íris em ângulos agudos.

Aberrações cromáticas, especialmente longitudinais, mostram‑se controladas — mérito dos vidros modernos e do revestimento. Isso favorece fotografia colorida e reduz franjas nas áreas fora de foco.

O bokeh é complexo: graças ao FLB, as lâminas de diafragma podem manter uma abertura arredondada, produzindo destaques com aparência de “cat’s eye” em f/2 e círculos mais limpos ao fechar o diafragma. Ao mesmo tempo, há um halo distintivo em torno de luzes e uma ondulação no fundo que alguns vão achar charmosa e outros, distração. Eu pessoalmente achei o fundo às vezes frenético — cheio de caráter, mas não necessariamente agradável em todas as situações.

Quanto à nitidez, a lente assume seu parentesco pré‑guerra: em f/2 o quadro inteiro tende a ficar suave, com baixa microcontraste — um “look” quase de difusor. Parando para f/4 o centro melhora significativamente; para cantos mais definidos é recomendável f/8. A lente também projeta um círculo de imagem grande a ponto de cobrir sensores de médio formato, o que abre possibilidades criativas, ainda que as bordas provavelmente fiquem muito suaves em sensores maiores.

Usabilidade e limitações: onde o charme encontra o cotidiano

A experiência de uso é um equilíbrio entre prazer estético e inconvenientes mecânicos. Fotógrafos que priorizam sentimento, aparência e pequenas irregularidades saem ganhando: a lente entrega personalidade e uma renderização difícil de replicar com vidro moderno comum. Para quem busca rapidez, ergonomia e resultados previsíveis no dia a dia, as limitações (anel de abertura vinculado ao foco, helicoide exposto, montagem exigente) podem ser frustrantes.

O preço também é fator decisivo: a produção limitada e o acabamento boutique colocam a Bertele em outro patamar financeiro — são alternativas mais acessíveis no mercado M‑mount, e recriações históricas mais fiéis a preços comparáveis também existem.

Alternativas e conclusão: comprar ou não?

Entre as alternativas citadas estão a Light Lens Lab, que recria lentes antigas com fidelidade extrema (incluindo defeitos originais), e marcas como Thypoch, que buscam um resultado mais moderno e funcional a preços mais acessíveis. Cada uma segue uma filosofia: replicar fielmente, reinterpretar com melhorias, ou oferecer desempenho contemporâneo.

Minha conclusão: sim — a Omnar Bertele 5cm f/2 vale a compra para quem busca o caráter histórico com refinamentos modernos. Ela entrega um visual único, construção de alto nível e correções importantes (como menor CA e melhor resistência a flare), preservando traços que atraem fotógrafos nostálgicos ou criativos. Contudo, é uma lente de nicho: o preço, as pequenas inconveniências mecânicas e o bokeh polarizador a tornam menos indicada para quem precisa de versatilidade absoluta ou de ergonomia moderna.

Nota editorial: a Omnar lançou o quarto lote de pré‑venda — possivelmente o último — no dia da publicação desta análise, o que reforça a natureza limitada da produção.

Resumo rápido para diferentes usuários: se você quer personalidade e não se importa com concessões manuais, enxergará valor aqui; se prefere rapidez, previsibilidade e cantos nítidos sem precisar parar o diafragma muito, existem opções mais práticas e mais em conta.

Deixe um comentário