Foto viral: fotojornalista lança Leica M10-R para salvar imagens ao ser derrubado por agentes do ICE em Minneapolis — veja como aconteceu
Imagem de Pierre Lavie registrou o momento em que John Abernathy arremessa a câmera para não ser apreendido; fotógrafos continuaram documentando as manifestações após abordagem violenta
O fotojornalista John Abernathy foi derrubado por agentes do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) em Minneapolis na tarde de 15 de janeiro. Em uma reação rápida, Abernathy arremessou sua Leica M10-R com lente de 28 mm para um colega, o fotógrafo Pierre Lavie, em uma tentativa de proteger as imagens que havia acabado de captar. A foto de Lavie se tornou viral ao mostrar o gesto desesperado e simboliza os riscos que repórteres visuais enfrentam ao cobrir protestos e operações policiais.
O contexto: protestos após a morte de Renee Good
A abordagem aconteceu em meio a um clima tenso em Minneapolis, reacendido após a morte da mulher de 37 anos, Renee Good, por um agente do ICE identificado como Jonathan Ross. A ação federal, que as autoridades afirmaram ter sido justificada, provocou grande mobilização e protestos na cidade e em outros locais. Fotógrafos independentes e profissionais, como Abernathy e Lavie, estavam no local para registrar as manifestações e as interações entre manifestantes e forças federais.
A sequência em segundos: do impacto à perda temporária do controle
Segundo levantamento do EXIF das imagens feitas por Lavie, o intervalo do primeiro impacto nas costas de Abernathy até o momento em que ele lançou sua câmera foi de aproximadamente cinco segundos. Em torno de oito segundos, Abernathy já estava totalmente contido por uma multidão de agentes. Em poucas ações rápidas, ele também lançou o telefone — que acabou sendo pisado por um agente — antes de ser levado para detenção temporária.
Abernathy descreveu o momento como sufocante: ‘Eu estava com pelo menos dois joelhos nas minhas costas’, disse ele, relatando que teve dificuldade para tirar os braços debaixo do corpo enquanto ordenavam que colocasse as mãos para trás. Ele também afirmou ter sido atingido por spray de pimenta no rosto e inalado gás lacrimogêneo, relatando que achou que podia perder a consciência.
Dois olhares sobre o mesmo episódio
As imagens de Abernathy e Lavie mostram perspectivas distintas do mesmo evento. A foto de Lavie, que viralizou, captura o gesto dramático de Abernathy arremessando a Leica para preservar as imagens. Poucos segundos antes, Abernathy produziu uma foto a partir do chão, que muitos leitores disseram transmitir a sensação de quem foi detido.
Também havia uma terceira forma de registro: a desenhista Isabelle Brourman, presente no local, fez esboços que registraram, entre outros momentos, o arremesso da câmera e o pisoteio do telefone. A multiplicidade de registros — foto, foto de apoio e desenho — torna mais claro como um único episódio pode ser visto sob várias lentes e servir como documento da cena.
Recuperação da câmera e repercussão
Por sorte, Lavie conseguiu segurar a Leica. Abernathy relatou que, quando recuperou o equipamento, a câmera apresentava apenas alguns arranhões, e o ponto de apoio (base plate) tinha marcas mais profundas. Em entrevista, ele comentou de forma bem-humorada que a câmera havia milagrosamente caído sobre a base de apoio não-Leica que a segurou.
O registro de Lavie tem gerado ampla repercussão online: internautas comentam sobre a força simbólica da imagem e há até especulação sobre indicação a prêmios de fotojornalismo, como o Pulitzer. Abernathy recebeu grande apoio nas redes, embora também tenha sido alvo de mensagens de ódio. Em um relato pessoal, ele disse que o carinho supera as críticas e mostrou-se emocionado com as mensagens de solidariedade.
Consequências legais e vida após a abordagem
Após o episódio, Abernathy foi citado por ‘impeding and obstructing normal access’ — uma infração que ele classificou como ‘besteira’ e que pode resultar em multa caso seja considerado culpado. Apesar de ferimentos causados por projéteis menos letais, queimaduras químicas e a necessidade de tratamento ocular contínuo, Abernathy voltou às ruas apenas dois dias depois para seguir cobrindo os protestos com a mesma Leica.
O reencontro entre Abernathy e Lavie ocorreu graças ao rastreamento do telefone por parte da esposa de Abernathy, que estava na Flórida. A vizinha Madeleine Dittmer conduziu Abernathy até Lavie para reaver o equipamento. Desde então os dois passaram a se conhecer melhor; Abernathy disse estar grato a Lavie por ter salvo a câmera e as fotos.
Sua filha, Pieper Lynn, passou a administrar as redes sociais do pai e descreveu a cena em uma postagem: ‘Meu pai é o cara que joga a Leica para que a verdade sobreviva’, escreveu ela, ressaltando que jornalistas não devem ser tratados como ameaças por documentar o que presenciam.
O significado da imagem
Para observadores e colegas, a foto de Lavie simboliza o papel do fotojornalismo em momentos de crise: registrar fatos, proteger a documentação e, muitas vezes, correr riscos pessoais para que a informação chegue ao público. Abernathy resumiu essa motivação: ‘O mundo precisa ver o que está acontecendo aqui’, afirmou, justificando sua permanência nas coberturas mesmo após a experiência de violência.
Independentemente de desdobramentos judiciais ou do alcance do registro nas premiações de imprensa, o episódio expõe questões sobre liberdade de imprensa, uso da força por agentes federais e a segurança de profissionais que documentam protestos. As imagens produzidas naquele curto intervalo — segundos que se estenderam na memória de muitos — seguem sendo amplamente compartilhadas e debatidas.
Créditos das imagens: John Abernathy (Instagram, Threads, Bluesky); Pierre Lavie (Instagram, Threads). Reportagem baseada em relatos de Abernathy e sequência fotográfica de Pierre Lavie.






