No fotojornalismo — e na fotografia em geral — escolher uma lente vai muito além de estética. Cada distância focal carrega uma intenção, uma forma de se posicionar diante da cena e, principalmente, uma maneira de contar histórias. Fotógrafos experientes não escolhem lentes por hábito, mas por estratégia.
Entender o papel de cada lente é o que transforma um conjunto básico de equipamentos em um verdadeiro sistema de trabalho narrativo.
A escolha da lente como decisão consciente
Antes de levantar a câmera, existe uma pergunta essencial: por que usar essa lente agora?
Essa reflexão simples separa dois tipos de fotografia:
- A que apenas reage ao que acontece
- E a que constrói uma narrativa com intenção
Quando há clareza na escolha, cada imagem passa a ter propósito — e não apenas composição.
50mm: equilíbrio entre proximidade e respeito
Uma lente de relação com o sujeito
A 50mm ocupa um espaço curioso: não é a mais dramática, nem a mais técnica, mas é extremamente funcional. Ela permite ajustar o nível de envolvimento com quem está sendo fotografado.
Quando usar
- Para criar conexão sem invadir o espaço pessoal
- Em retratos naturais, sem exageros de perspectiva
- Quando há liberdade para escolher entre proximidade e distância
O que ela resolve
A principal força da 50mm está na neutralidade. Ela oferece uma leitura mais “humana” da cena, permitindo que o fotógrafo decida o quanto participa ou observa.
Limitação
Por não ter um efeito marcante, pode parecer “sem personalidade” — mas isso é justamente o que a torna tão versátil.
85mm: solução para cenários difíceis
A lente que simplifica o caos
Quando o ambiente não ajuda — seja por excesso de informação, desorganização ou distrações — a 85mm entra como ferramenta prática para resolver o problema.
Quando usar
- Em locais visualmente poluídos
- Para destacar o sujeito com clareza
- Em retratos mais controlados
O que ela resolve
- Isola o assunto do fundo
- Cria uma sensação de limpeza visual
- Ajuda a transformar cenários comuns em imagens mais profissionais
Limitação
O uso excessivo pode eliminar o contexto da cena, deixando a imagem desconectada da história maior.
35mm: narrativa, contexto e movimento
A lente que exige intenção
A 35mm não é apenas uma escolha técnica — ela exige decisão. Diferente das outras, ela força o fotógrafo a pensar no que incluir ou excluir do quadro.
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Quando usar
- Para mostrar o ambiente junto com o sujeito
- Em cenas dinâmicas e cheias de informação
- Quando o contexto é parte essencial da história
O que ela resolve
- Integra personagem e cenário
- Cria sensação de presença e movimento
- Amplia a narrativa visual
Limitação
Sem intenção clara, pode gerar imagens confusas ou poluídas. É uma lente poderosa mas fácil de usar de forma superficial.
Zooms: pragmatismo em situações reais
Quando a velocidade importa mais que a pureza
Em cenários de trabalho intenso como eventos, produções híbridas ou situações imprevisíveis a troca constante de lentes pode ser um obstáculo.
Quando usar
- Em trabalhos com ritmo acelerado
- Quando não há tempo para trocar lentes
- Em produções que exigem flexibilidade imediata
O que ele resolve
- Adaptação rápida a diferentes enquadramentos
- Redução de perda de momentos importantes
- Eficiência operacional
Limitação
Pode reduzir a intenção na escolha do enquadramento se usado de forma automática.
Conclusão: a pergunta que define tudo
Antes de trocar de lente, existe uma regra simples e poderosa:
Por que estou usando essa lente?
Se não houver uma resposta clara, a escolha está sendo feita por impulso não por decisão.
O que muda com essa mentalidade
- As imagens ganham consistência
- A narrativa se torna mais clara
- O fotógrafo deixa de reagir e passa a construir
No fim, não são as lentes que contam histórias é a intenção por trás de cada escolha.







Não tenho uma 35 nem uma 85mm mas adoro retratar com minha 50mm 1.4. Adorei a matéria!