Fotógrafo constrói câmeras e registra flores selvagens em impressões gigantes: como ‘Flowers for Bea’ une memória, ritual e química analógica

Fotógrafo constrói câmeras e registra flores selvagens em impressões gigantes: como ‘Flowers for Bea’ une memória, ritual e química analógica

Brendan Barry converte espaços e objetos em câmeras obscuras — de um ginásio vazio a um abacaxi — para produzir fotografias feitas diretamente em papel cromogênico que revelam tempo, família e processos manuais

Uma prática centrada no processo

Brendan Barry é fotógrafo, educador e construtor de câmeras cuja prática analógica prioriza o ato de fazer. Em vez de trabalhar com rapidez e eficiência, Barry explora a dimensão material e temporal da fotografia: montagem de equipamentos, experimentação química e convites à participação.

Formado em fotografia, com trajetória profissional e retorno à educação para um mestrado, ele acabou direcionando sua produção para projetos socialmente engajados. O ensino foi, segundo ele, um ponto de virada que o levou a desenvolver um método colaborativo e participativo.

“Sempre me interessei por fotografia — é um meio que sempre fez sentido para mim. Ensinar foi um ponto de virada importante. Levou-me a desenvolver uma prática criativa mais voltada para o engajamento social”, afirma Barry.

Câmeras feitas à mão: do galpão ao abacaxi

No centro do trabalho de Barry está a câmera obscura: espaços convertidos em câmeras que tornam visível o funcionamento mais elementar da fotografia — a passagem da luz. Ele transforma locais como galpões, elevadores, lojas, varandas, caravanas, contêineres e até andares inteiros de prédios em câmeras funcionais. Objetos do cotidiano também viram câmeras, cita exemplos que vão de um abacaxi a um velho ampliador de laboratório, de um tronco a pães.

Essas construções não apenas determinam o aspecto das imagens, mas moldam a experiência de quem participa. Os limites físicos do espaço, os materiais usados e o tempo de exposição influenciam como participantes e público percebem e vivenciam o processo fotográfico.

Flowers for Bea: família, ritual e tempos longos

Flowers for Bea é um livro com naturezas-mortas de flores silvestres colhidas perto da casa de Barry em Devon. As imagens foram feitas dentro de uma câmera obscura do tamanho de uma sala, usando dois processos analógicos distintos que exigiam longas exposições e controle químico rigoroso. Em alguns casos, uma imagem bem-sucedida precisou de até oito horas de exposição.

O projeto nasceu na primavera e no verão de 2020, durante os lockdowns provocados pela pandemia. Barry passou a fazer caminhadas diárias com a filha; a rotina virou um ritual: recolher flores — papoula-califórnia, erva-doce, centáurea (cornflower), Queen Anne’s lace, entre outras — trazê-las para casa, arranjá-las em vasos e fotografá-las.

Inicialmente, Barry construiu uma câmera obscura e um laboratório no galpão do jardim; quando as restrições afrouxaram, transferiu o trabalho para um ginásio desocupado na cidade. Algumas imagens foram capturadas com negativos de papel simples; outras usaram um complexo processo de reversão em cores que ele desenvolveu. As fotografias foram feitas diretamente sobre papel cromogênico sensível à luz — o que torna cada prova única: variações de temperatura ambiente e concentrações químicas alteram balanço de cor e exposição, tornando impossível reproduzir exatamente uma mesma imagem.

“Este trabalho é, no fundo, sobre família. Claro que são representações de flores, mas também são sinais de improvisações complexas com químicos, papel, luz e tempo. No início do processo não sei como a imagem ficará: cada uma é uma pequena revelação”, diz Barry.

Escala, lentidão e descoberta coletiva

Barry costuma trabalhar em escalas muito grandes — de 8×10 polegadas até provas de 50×100 polegadas — tamanhos que exigem soluções técnicas e criativas fora do padrão. A ausência de equipamentos comerciais para esses formatos o leva a projetar e construir câmeras, sistemas de iluminação e estruturas de suporte do zero. Esse aparato forçado pela escala é parte intrínseca do trabalho: ele desacelera a produção e demanda atenção contínua.

O resultado revela detalhes com nitidez além do que o olho humano percebe; em grande formato, as imagens adquirem uma qualidade estranha e reveladora, fazendo emergir elementos antes despercebidos. Barry também enfatiza a importância de ver as obras presencialmente para compreender plenamente essas qualidades.

A colaboração é componente essencial: ele convida regularmente outras pessoas a entrar na câmera, participar dos processos e testemunhar o surgimento das imagens no banho de revelação. Esse instante de aparição é coletivo e transforma a fotografia em registro de uma experiência partilhada — de aprendizado, resolução de problemas e descoberta.

“A fotografia torna-se não apenas um objeto, mas o registro de uma experiência compartilhada — de aprendizagem, resolução e de fazer algo em conjunto. O momento em que a imagem aparece na bandeja de revelação é frequentemente partilhado, e esse sentido coletivo de descoberta e transformação é incrivelmente poderoso”, afirma o fotógrafo.

O que vem a seguir

Além de Flowers for Bea, Barry vem desenvolvendo trabalhos abstratos que controlam encontros com a luz para explorar superfície, cor e espacialidade como objetos visuais completos. Paralelamente, mantém o compromisso com práticas socialmente engajadas por meio da educação e de sua organização sem fins lucrativos, a Positive Light Projects — incluindo a criação de um laboratório fotográfico comunitário que será inaugurado oficialmente em fevereiro.

Ao unir construção, ensino e participação, o fotógrafo busca abrir novas formas de ver e espaços onde a curiosidade e a experimentação prosperem. Em Flowers for Bea, esse conjunto se cristaliza: um ritual cotidiano — caminhadas com a filha, flores colhidas, horas em câmera e químicas — transformado em uma obra que preserva memórias e tempos longos.

Crédito das imagens: Brendan Barry

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